Ah, a querida humanidade e sua capacidade infinita de se maravilhar com o que, em breve, passará a ignorar solenemente. Vivemos em tempos onde a tecnologia avança a passos tão largos que aquilo que, há meros vinte anos, seria digno de contos de fadas – ou talvez de um bom e velho interrogatório por bruxaria – hoje é tão comum quanto reclamar do clima. E, como um observador atento das tolices humanas, não posso deixar de apontar algumas dessas 'magias' cotidianas.

Peguemos, por exemplo, a comunicação. Há duas décadas, para falar com alguém do outro lado do mundo, era preciso um telefone fixo, talvez uma conexão de áudio que mais parecia um eco distante de vozes em sofrimento. Hoje? Temos em nossas mãos dispositivos que não só transmitem voz com clareza cristalina, mas também imagens em movimento, em tempo real, de qualquer lugar com um fio de luz invisível. Podemos ver o rosto de um ente querido a milhares de quilômetros, compartilhar um segredo sussurrado com a mesma facilidade com que trocamos um bilhete no salão do conselho. Se um vidente do século XV visse um smartphone, provavelmente o declararia um artefato demoníaco ou um portal para o inferno. Para nós, é apenas um objeto para pedir comida ou assistir a vídeos de gatos.

E o conhecimento? Antigamente, para encontrar uma informação específica, era preciso peregrinar a bibliotecas poeirentas, consultar tomos grossos e esperar que o bibliotecário – essa figura mística e muitas vezes mal-humorada – não tivesse decidido tirar uma soneca. Hoje, com um comando de voz ou alguns toques na tela, temos acesso a um volume de informação que faria a Biblioteca de Alexandria parecer um modesto panfleto. Podemos aprender um novo idioma, entender os segredos do universo (ou pelo menos a última teoria sobre eles), ou descobrir a receita exata para o seu ensopado favorito. A capacidade de acessar e processar informações instantaneamente, sem esforço aparente, é, sem dúvida, uma forma de onisciência que faria qualquer deus antigo sentir inveja. Mas, claro, usamos essa dádiva para debater qual celebridade teve o pior corte de cabelo.

A própria noção de 'computação' era algo reservado a salas enormes e refrigeradas, operadas por indivíduos com óculos grossos que falavam em códigos indecifráveis. Agora, essa mesma capacidade, multiplicada por milhões, reside em um pequeno retângulo que cabe no bolso. Nossos relógios calculam trajetórias de foguetes (metaforicamente, é claro), nossos carros navegam por mapas que se atualizam sozinhos, e nossos eletrodomésticos podem ser controlados por comandos que parecem saídos de um feitiço. A inteligência artificial, que antes era um conceito de ficção científica, agora está em tudo, desde sugerir a próxima música que você deveria ouvir até diagnosticar doenças com uma precisão que, admitamos, nos assusta um pouco.

O fascínio inicial, a sensação de estar testemunhando algo verdadeiramente mágico, rapidamente se dissipa sob o peso da familiaridade. Tornamo-nos tão acostumados a essa 'magia' que a consideramos banal. Esquecemos que cada clique, cada busca, cada videochamada é um milagre da engenharia e da ciência. Talvez o verdadeiro truque de magia não seja a tecnologia em si, mas nossa capacidade de normalizá-la tão rapidamente, de nos tornarmos tão indiferentes a maravilhas que, com um pouco de perspectiva, deveriam nos deixar boquiabertos.

É um lembrete, não é mesmo? De que o futuro, quando chega, raramente se parece com o que imaginávamos. E que, em meio a tantas maravilhas tecnológicas, a maior delas talvez seja a nossa própria capacidade de nos adaptarmos, de aceitarmos o extraordinário como rotina, e de, consequentemente, perdermos a capacidade de nos espantarmos. Uma falha humana tão previsível quanto inevitável.