Navegando pelas lojas de aplicativos, a gente se depara com um universo vasto. A maioria promete otimizar nossa vida, nos conectar, nos informar ou nos entreter de forma eficiente. Mas, de vez em quando, tropeçamos em joias raras, ou talvez nem tão raras assim, que não servem para muita coisa prática, mas que têm um charme peculiar.
Pensemos nesses aplicativos que poderiam ser facilmente descartados como inúteis. Um que simula jogar pedrinhas em um lago virtual, com sons realistas de água e pedras. Outro que permite criar paisagens abstratas apenas tocando na tela, sem objetivo final, apenas para ver as cores e formas mudarem. Ou talvez um que exibe animações simples e repetitivas de objetos cotidianos, como uma torradeira que sempre cai com a manteiga para baixo, ou um gato que persegue um ponteiro laser sem nunca pegá-lo.
O que nos atrai nesses programas? Talvez seja a simplicidade em um mundo que exige cada vez mais de nós. Em meio a feeds infinitos e notificações incessantes, um aplicativo que faz uma única coisa, e essa coisa é puramente contemplativa ou até mesmo bobinha, pode ser um refúgio. É como encontrar um pequeno brinquedo de inquietação digital, algo para desviar o olhar do turbilhão e simplesmente... observar.
Lembro-me de uma época em que os softwares eram mais experimentais. Não havia a pressão de um modelo de negócio explícito por trás de cada linha de código. Desenvolvedores criavam por pura diversão, para explorar uma ideia maluca, para ver se algo funcionava. Muitos desses aplicativos inúteis guardam um pouco desse espírito.
Há também aqueles que brincam com a nossa percepção. Um aplicativo que imita o som de chuva em diferentes ambientes, desde uma floresta densa até um telhado de zinco, e você pode ajustar a intensidade e o tipo de chuva. Não vai te ajudar a terminar um projeto ou a pagar uma conta, mas pode criar uma atmosfera relaxante para um momento de pausa.
Ou quem sabe um simulador de fogo de artifício, onde você pode 'disparar' fogos com um toque na tela, e a tela se enche de luzes e sons de explosões. É efêmero, é barulhento, não tem propósito algum além de gerar um pequeno espetáculo visual. E, ainda assim, há uma satisfação estranha em ver a tela se iluminar.
Talvez o fascínio resida na própria desnecessidade. Vivemos em uma cultura de produtividade, onde cada minuto deve ser 'bem gasto'. Encontrar algo que não exige nada de você, que não tem uma meta a ser atingida, pode ser libertador. É um pequeno ato de rebeldia contra a tirania da utilidade.
Esses aplicativos são como os objetos colecionáveis que não têm valor monetário, mas guardam memórias ou um significado pessoal. Ou como aqueles jogos de criança que não tinham regras complexas, apenas a alegria pura de brincar. No fundo, eles nos lembram que nem tudo precisa ter um propósito prático para ser valioso. Às vezes, o simples ato de existir, de oferecer uma distração boba, de nos fazer sorrir por um instante com sua estranheza, já é motivo suficiente.
São pequenos respiros em um mundo que parece querer nos moldar em máquinas eficientes. Um lembrete de que a humanidade, com suas peculiaridades e seus momentos de pura contemplação sem sentido, ainda encontra seu lugar, mesmo em um smartphone.