Cansado de gente fingindo ser o que não é? Eu também. O mundo moderno, com suas redes sociais e a ânsia por validação, parece ter criado uma epidemia de falsidade. Todos querem parecer mais felizes, mais bem-sucedidos, mais interessantes do que realmente são. É um circo. E, ironicamente, são os personagens de histórias – aqueles que nunca pisaram em solo real – que muitas vezes demonstram uma profundidade e uma autenticidade que faltam a tantos por aí.
Pense em Geralt de Rivia, por exemplo. Sim, eu sei, o nome. Mas ignore o nome por um momento e olhe para o personagem. Um mutante, um matador de monstros, um homem marcado por cicatrizes e pela solidão. Ele não finge. Ele faz o que precisa ser feito, com um senso de moralidade peculiar, sim, mas inegavelmente real. Suas lutas internas, suas tentativas desajeitadas de conexão, sua lealdade a poucos escolhidos – tudo isso ressoa de uma forma que poucos personagens ‘normais’ conseguem.
Ou que tal um personagem como Arthur Morgan, de Red Dead Redemption 2? Um fora da lei, um homem acostumado à violência e à traição. Mas, à medida que a história avança, vemos suas dúvidas, seu arrependimento, sua busca por redenção em um mundo que o moldou para ser um criminoso. Ele se torna mais humano nas suas falhas e nas suas tentativas de ser algo melhor do que muitos heróis polidos e sem conflitos internos.
E não vamos esquecer de Ellie, de The Last of Us. Uma jovem que cresceu em um apocalipse, cercada por morte e perda. Sua raiva, seu sarcasmo, sua capacidade de amar intensamente e de odiar com a mesma força. Ela é crua, imprevisível, e em suas reações viscerais encontramos uma verdade que muitas vezes é diluída em personagens criados para serem agradáveis. Ela sente dor, medo, amor, e isso a torna palpável.
Por que esses personagens, criados em mentes alheias, parecem mais ‘reais’ do que pessoas que vemos todos os dias? Talvez porque os criadores se permitam explorar as complexidades, as contradições e as verdades inconvenientes da natureza humana sem o filtro da autopreservação que tantos usam na vida real. Eles podem mostrar o cinza, o moralmente ambíguo, o feio junto com o belo, sem medo de serem julgados ou rejeitados por uma audiência que, paradoxalmente, anseia por essa autenticidade.
Na ficção, os personagens são forçados a confrontar suas naturezas, suas escolhas e suas consequências de maneiras que raramente acontecem na vida cotidiana. Não há a mesma necessidade de manter as aparções, de sorrir para o chefe, de concordar com o vizinho. Há apenas a história, o conflito e a alma exposta do personagem. E é nessa exposição que encontramos algo genuíno.
Talvez devêssemos olhar mais para essas narrativas. Não para escapar da realidade, mas para entendê-la melhor. Para reconhecer em nossas próprias vidas as falhas, as dúvidas e as lutas que tornam esses personagens tão cativantes. Afinal, a humanidade não é sobre perfeição. É sobre a jornada, com todas as suas imperfeições.